Artigo

01-08-2006

Crónicas de formação psicológica

Após dez anos de actividade como árbitra, tenho a dizer que a arbitragem faz crescer. Faz crescer como pessoa, faz com que tenhamos uma consciência única do que é existir em relação e com as pessoas que nos rodeiam. Faz com que tenhamos o controlo necessário para enfrentar todos os obstáculos com que nos deparamos diariamente. Porquê? Porque quando apitamos para o início do jogo, o mais difícil já foi ultrapassado. É nesse preciso momento que nos abrimos a uma nova realidade, à experiência de um novo jogo, de decisões firmes e conscientes, a um caminho sem medo, sem hesitações. O que é isto senão o caminho para a felicidade? Só tem que correr bem se estivermos preparados para o que vem. Preparados fisicamente e emocionalmente, somos, das três equipas em campo, a melhor.

E, o que é mais difícil na vida de um árbitro? É a vida da pessoa que é o árbitro. Até começar o jogo, passámos uma semana de trabalho, treinos semanais, recebemos a nomeação do jogo, comunicámos com os colegas que vão ao jogo, discutimos com o nosso companheiro ou com a nossa família (“nunca estás cá ao fim-de-semana” – “ai, não quero o divórcio”), tentamos descansar no final de cada dia de trabalho para que no fim-de-semana de jogos possamos estar serenos (“ai, maldita insónia, preciso dormir”) arrumámos o saco de equipamentos (“ai, não sei se me falta alguma coisa”) comunicámos ao chefe que vamos precisar sair mais cedo na sexta-feira ou faltar nesse dia porque vamos ter que apanhar um avião ou pernoitar num lugar distante para arbitrar um jogo (ai, será que vou ser despedido?), preparámos o carro para a viagem (“ai, será que o carro vai conseguir resistir a mais 1000 km num dia”), evitámos contactos telefónicos dos amigos (“Vamos tomar um copo logo, dançar até amanhecer” – “ai, não dá, tenho jogo amanhã, fica para a próxima”) reunimos com os colegas às 7 da manhã para estar no campo mais do que uma hora de antecedência, resolvemos o imprevisto da falta de um árbitro assistente (“Oi, sei que é muito em cima da hora, mas estou muito doente”), fizemos refeições adequadas (“ai, essa alheira de Mirandela está com um aspecto delicioso mas…”), olhámos para o mapa inúmeras vezes para tentar encontrar o caminho (“ai, estamos perdidos. Olhe, se faz favor, pode indicar-nos onde fica o campo de futebol?”), encontrámos o campo e vamos para o balneário dos árbitros (“ai, que pequeno! Podemos pôr as malas em cima uma das outras e vestimo-nos à vez”) enfrentamos alguns percalços (“Ai, senhores árbitros, hoje não temos água quente, rebentou-se a caldeira, espero que compreendam…” – “Ai, estamos em pleno Inverno!”). Antes de começar o jogo, verificamos o equipamento e afins: relógio, apito, moeda, cartões, caneta, bloco de notas, bola, cabeça, tronco, membros, árbitros assistentes, bandeiras, disposição, batidas cardíacas, espelho para ver se estamos bem encarados, respirar fundo, sair do balneário, jogadores em sentido, directores, massagistas, treinadores, bombeiros, maca, polícias ou guardas, público que já começou a falar connosco (“que queridos, antes do jogo já começam a tratar-nos bem!”), identificação dos jogadores, sorteio, saudação, balizas em ordem, troca de olhares entre os árbitros, cronómetro a postos… COMEÇOU O JOGO!



As crónicas vão surgir consigo focando o mundo do árbitro, competências psicológicas, estratégias para lidar com o stress, entre variadíssimos assuntos relacionados com a formação e a psicologia.



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